Ministério da Saúde lançou ação para ouvir fumantes e ex-fumantes e aperfeiçoar políticas de combate ao tabagismo no país.
O número de fumantes voltou a crescer no Brasil depois de quase duas décadas de queda, reacendendo a preocupação de especialistas e autoridades de saúde pública. Dados do Vigitel mostram que 11,7% dos adultos brasileiros fumavam em 2024, contra 9,2% em 2023. O Ministério da Saúde lançou nesta semana a ação “Minha História Sem Filtro”, que pretende ouvir fumantes, ex-fumantes e familiares sobre as dificuldades relacionadas ao consumo de cigarros e utilizar esses relatos no desenvolvimento de novas estratégias de prevenção e cessação. (Serviços e Informações do Brasil)
O movimento levanta uma dúvida importante para pacientes e profissionais: por que o tabagismo voltou a avançar e quais recursos estão disponíveis para quem deseja abandonar a nicotina? A questão é especialmente relevante porque parar de fumar não depende apenas de força de vontade. A dependência de nicotina é reconhecida como uma condição crônica, e o tratamento pode envolver acompanhamento profissional, estratégias comportamentais e, quando indicados por profissionais de saúde, medicamentos disponibilizados pelo SUS.
Por que o número de fumantes voltou a preocupar as autoridades de saúde
O dado mais recente divulgado pelo Ministério da Saúde chama atenção porque interrompe uma trajetória de redução que vinha sendo observada por muitos anos. Em 2006, 15,7% da população adulta brasileira declarava fumar; em 2023, o indicador havia chegado a 9,2%, mas subiu para 11,7% em 2024. O crescimento não significa que o Brasil tenha perdido os avanços acumulados nas últimas décadas, mas mostra que o controle do tabagismo exige políticas contínuas e capacidade de responder a mudanças no comportamento da população. (Serviços e Informações do Brasil)
A tendência também precisa ser analisada considerando as diferenças entre grupos. Entre homens, a proporção de fumantes caiu de 19,5% em 2006 para 13,9% em 2024, enquanto entre mulheres passou de 12,4% para 9,5% no mesmo período. Paralelamente, os dispositivos eletrônicos para fumar ganharam espaço entre adultos jovens: segundo os dados apresentados pelo Ministério da Saúde, o uso entre pessoas de 18 a 24 anos chegou a 10,1% em 2024, contra 7,4% em 2019. A Organização Mundial da Saúde também considera o avanço dos cigarros eletrônicos entre jovens um desafio relevante para políticas de controle do tabaco. (Serviços e Informações do Brasil)
Do ponto de vista médico, o problema vai muito além da dependência química. O tabagismo está associado a mais de 50 doenças, incluindo diferentes tipos de câncer, enfermidades cardiovasculares e problemas respiratórios. O Ministério da Saúde informa que o cigarro está relacionado a cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão no Brasil, além de contribuir para milhares de mortes prematuras todos os anos. (Serviços e Informações do Brasil)
É justamente nesse contexto que a nova iniciativa do governo federal ganha relevância. A ação “Conte o que o cigarro não mostra” pretende reunir relatos sobre os efeitos do tabagismo na rotina, nas relações familiares, na convivência social e na qualidade de vida. Segundo o Ministério da Saúde, essas informações serão utilizadas para definir novas imagens e mensagens para as embalagens de cigarros e aprimorar políticas públicas. Os depoimentos podem ser enviados até novembro pelo formulário da campanha. (Serviços e Informações do Brasil)
Como funciona o tratamento para parar de fumar oferecido pelo SUS
Uma das informações mais importantes para quem pretende abandonar o cigarro é que o tratamento está disponível gratuitamente na rede pública. O Ministério da Saúde informa que 2,1 milhões de pessoas foram atendidas pelo SUS em 2025 em busca de apoio para parar de fumar, número muito superior aos cerca de 351 mil atendimentos registrados em 2015. O crescimento mostra que a procura por assistência especializada aumentou e também evidencia a existência de uma estrutura pública voltada à cessação do tabagismo. (Serviços e Informações do Brasil)
A porta de entrada é, em geral, a Unidade Básica de Saúde, onde a equipe pode realizar o acolhimento e avaliar a situação de cada paciente. O cuidado pode incluir acompanhamento individual ou em grupo, orientações para lidar com a dependência e avaliação do grau de dependência da nicotina. Quando houver indicação clínica, profissionais podem utilizar medicamentos para reduzir sintomas de abstinência, entre eles adesivos e gomas de nicotina e bupropiona, conforme os protocolos e a avaliação individual. (Serviços e Informações do Brasil)
O tratamento não deve ser entendido como uma receita única válida para todos. A dependência apresenta características diferentes entre pacientes, e fatores como histórico de tentativas anteriores, intensidade do consumo, sintomas de abstinência, outras condições de saúde e contexto emocional podem influenciar a abordagem escolhida pela equipe. Por isso, pessoas que desejam parar de fumar devem procurar uma unidade de saúde ou profissional habilitado para receber uma avaliação individualizada, em vez de iniciar medicamentos por conta própria.
Para médicos e demais profissionais de saúde, a abordagem também exige atenção ao risco de recaídas. O protocolo descrito pelo Ministério da Saúde envolve identificação do paciente, acolhimento, avaliação clínica, definição de um plano terapêutico, acompanhamento da evolução e manejo de eventuais recaídas. Essa estrutura reconhece que abandonar a nicotina pode exigir acompanhamento ao longo do tempo e que uma recaída não deve ser interpretada simplesmente como fracasso do paciente. (Serviços e Informações do Brasil)
A presença de tratamento gratuito no SUS também amplia a importância da Atenção Primária. As Unidades Básicas de Saúde funcionam como uma porta de entrada para prevenção, acompanhamento e encaminhamento dentro da rede pública. Para o paciente, isso significa que não é necessário esperar o aparecimento de uma doença relacionada ao cigarro para buscar ajuda. A procura por assistência pode ocorrer justamente quando existe a intenção de parar de fumar ou quando a pessoa percebe que não consegue interromper o consumo sozinha.
O que médicos e pacientes precisam saber sobre cigarros eletrônicos e prevenção
O avanço dos dispositivos eletrônicos para fumar acrescenta uma camada de complexidade ao combate ao tabagismo. Segundo o Ministério da Saúde, a frequência de adultos que fumam ou utilizam esses dispositivos passou de 2,3% em 2019 para 2,4% em 2024, enquanto entre jovens de 18 a 24 anos chegou a 10,1%. O dado é particularmente relevante porque a exposição à nicotina em fases mais jovens pode contribuir para a manutenção da dependência e dificultar estratégias de prevenção. (Serviços e Informações do Brasil)
No Brasil, a Anvisa mantém regras rigorosas sobre dispositivos eletrônicos para fumar. A regulamentação atual proíbe fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda desses produtos no país. A OMS destaca que, apesar da legislação brasileira, o uso desses dispositivos continua sendo um desafio de saúde pública, principalmente entre jovens adultos. (Organização Mundial da Saúde)
Para a medicina, esse cenário reforça a necessidade de diferenciar prevenção, redução de danos e tratamento da dependência. Um paciente que utiliza cigarro convencional, dispositivo eletrônico ou ambos deve receber orientação profissional adequada ao seu padrão de consumo e aos seus fatores de risco. Informações encontradas em redes sociais não substituem avaliação clínica, especialmente quando há sintomas respiratórios, cardiovasculares ou outras alterações de saúde associadas ao consumo de nicotina.
A nova campanha do Ministério da Saúde também evidencia uma mudança importante na comunicação sobre tabagismo. Além das imagens tradicionais de advertência nas embalagens, o governo pretende compreender experiências pessoais que não aparecem nas estatísticas, como impactos nas relações, na rotina e na qualidade de vida. Essa estratégia pode ajudar as políticas públicas a dialogar com diferentes grupos e identificar obstáculos que dificultam a tentativa de cessação. (Serviços e Informações do Brasil)
Para quem fuma e deseja parar, o principal passo não precisa ser feito sozinho. A rede pública oferece acompanhamento e recursos terapêuticos, e uma equipe de saúde pode avaliar quais estratégias são adequadas para cada caso. Já para médicos, o aumento recente da prevalência reforça a importância de perguntar sobre tabagismo durante o atendimento e oferecer orientação baseada em evidências.
O crescimento registrado em 2024 funciona como um alerta, mas também mostra onde a política de saúde pode atuar. O Brasil acumulou avanços importantes no controle do tabaco, e a queda histórica da prevalência demonstra que medidas de prevenção e regulação podem produzir resultados. Ao mesmo tempo, os dados recentes indicam que novas estratégias são necessárias para evitar uma reversão dessa trajetória. (Serviços e Informações do Brasil)
Para o paciente, existe uma mensagem prática: buscar ajuda para parar de fumar é uma questão de saúde, não de falta de disciplina. O SUS oferece tratamento gratuito, e a UBS pode orientar sobre a disponibilidade dos serviços na região. Quem apresenta sintomas ou possui outras condições médicas deve conversar com um profissional de saúde antes de iniciar qualquer medicamento ou estratégia de cessação. A combinação entre acompanhamento clínico, políticas públicas eficazes e informação confiável continua sendo fundamental para reduzir os impactos do tabagismo no Brasil.
