Haroldo Augusto Filho

Resolver o conflito não repara a relação sozinho

Ivan Belvich
Ivan Belvich
5 Min de leitura
Haroldo Augusto Filho

Quando duas partes chegam a um acordo depois de um conflito, é comum presumir que a relação entre elas volta automaticamente ao que era antes, como se resolver os termos em disputa também resolvesse o desgaste acumulado durante o processo. Na prática, essas são duas coisas diferentes: uma é sobre o conteúdo do desacordo, a outra é sobre a confiança entre as partes envolvidas, e uma pode estar plenamente resolvida enquanto a outra ainda precisa de atenção.

Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, observa que empresas que tratam essas duas dimensões como se fossem a mesma coisa costumam sair de um conflito com o problema técnico resolvido, mas com a relação ainda fragilizada, algo que tende a aparecer de novo na próxima interação entre as partes.

Por que resolver o conteúdo não repara automaticamente a confiança?

Um acordo bem estruturado resolve a questão específica que gerou o desacordo, mas não desfaz, por si só, a cautela que um lado passou a ter em relação ao outro durante o processo. Haroldo Augusto Filho, nesse âmbito, ressalta que essa cautela costuma se manifestar de formas discretas: menos abertura para compartilhar informação, mais formalidade nas interações seguintes, hesitação em assumir compromissos que antes seriam tratados com naturalidade.

Nenhum desses sinais aparece registrado em nenhum termo do acordo, mas todos afetam a qualidade da relação daí em diante, especialmente se nenhuma das partes reconhece explicitamente que esse desgaste existe. Esse tipo de desgaste silencioso é mais difícil de tratar do que o próprio desacordo original, justamente porque ninguém formaliza sua existência em lugar nenhum.

O que costuma ajudar a reconstruir a relação depois do acordo?

Reconhecer explicitamente que o processo gerou desgaste, mesmo com o desacordo tecnicamente resolvido, costuma ser mais eficaz do que simplesmente seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Uma conversa breve, depois de fechado o acordo, sobre como cada lado experimentou o processo, ajuda a normalizar o desconforto sem deixá-lo acumulado silenciosamente, funcionando quase como um fechamento simbólico que a assinatura do acordo, sozinha, não oferece.

Haroldo Augusto Filho destaca que empresas que fazem esse tipo de reconhecimento explícito tendem a reconstruir a colaboração mais rápido do que aquelas que tratam o fim do acordo como o fim automático de qualquer desgaste remanescente entre as partes.

Haroldo Augusto Filho
Haroldo Augusto Filho

Por que o tempo sozinho nem sempre resolve o desgaste residual?

Existe uma expectativa de que a passagem do tempo cuida naturalmente do que ficou de tensão depois de um conflito resolvido. Em alguns casos isso acontece, mas em outros o desgaste simplesmente se acomoda numa nova forma de interação mais distante, sem que ninguém reconheça abertamente que a relação mudou depois do episódio, criando uma normalidade nova que já não se parece com a de antes do conflito.

Nota-se, portanto, que esperar passivamente pela reconstrução da confiança costuma funcionar pior do que agir deliberadamente para reconstruí-la. Segundo Haroldo Augusto Filho, isso ocorre porque o padrão de distância criado durante o conflito tende a se manter, a menos que algo explícito o interrompa.

Preservar a relação exige atenção depois que o acordo já foi fechado

Tratar o fechamento de um acordo como o fim do processo de gestão de conflito ignora que a dimensão relacional continua existindo depois que a dimensão técnica já foi resolvida. Empresas que investem atenção nessa etapa posterior tendem a preservar relações comerciais de longo prazo com mais consistência do que aquelas que consideram o trabalho encerrado assim que o acordo é assinado, sem qualquer atenção adicional ao que a relação ainda carrega do processo.

Haroldo Augusto Filho, em síntese, frisa que o acordo é capaz de resolver o desacordo e que a relação precisa de um cuidado próprio, que raramente acontece de forma automática só porque os termos já foram fechados e o documento está assinado por ambas as partes.

Compartilhe esse Artigo